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Não consigo parar de pensar, crônica de Vitória Tani

Postado à, 0 dias atrás | 8 minutos de leitura

Não consigo parar de pensar,  crônica de Vitória Tani
À medida que crescemos, as perguntas que fazemos mudam de forma.
 
No começo, são importantes, mas fáceis de responder. As clássicas: por que o céu é azul? Quantas cores tem o arco-íris? Ou, no meu caso — Pai, a água é velha? — e assim por diante. Depois vem a adolescência, e as perguntas ganham outro tom: parecem menos importantes, mas continuam simples. Quase sempre: será que ele gosta de mim? Por que essa aula é tão chata? Por que meus pais pegam tanto no meu pé? Ou, no meu caso — quanto tempo isso vai durar?
 
E então chega a vida adulta. E, até onde posso dizer, é quando tudo começa a sair do controle. Os questionamentos se multiplicam dentro de uma mente que já pensa demais. Curiosamente, não são as grandes perguntas — vida, morte, sentido — que mais me atormentam. Pelo menos, não por enquanto. O que me consome, de verdade, é algo mais concreto: o sistema.
 
Na semana passada, tive meus pés arrancados do chão por uma demissão inesperada, em um trabalho que eu amava. Sou técnica de enfermagem. Vivo para cuidar de pessoas. Amo o que faço. Acordo cedo e sigo feliz para uma rotina de cuidados com gente que eu nunca vi antes, mas por quem sinto uma empatia quase automática.
 
Vou te contar o que aconteceu. A partir daqui, somos confidentes.
 
Eu realmente gostava do meu trabalho — mesmo amando voltar para casa no fim do dia, como qualquer pessoa. Tenho um senso de humor peculiar. Muitas vezes, quando os pacientes me procuravam sem saber meu nome, diziam algo como: “Estou procurando uma enfermeira… uma gordinha engraçadinha.” E eu gostava disso. Gosto de fazer as pessoas rirem. É natural para mim. No fundo, sou meio boba. E, sendo sincera, acho que isso me faz mais feliz.
 
Naquele dia, cheguei mais cedo, como sempre. A unidade era especializada em exames, e às segundas e sextas realizávamos endoscopias e colonoscopias. O dia seguiu leve: risadas com colegas, conversas com pacientes, o trabalho sendo feito — e a expectativa tranquila das 16h, quando eu poderia ir para casa.
 
Por volta das 15h45, minha enfermeira foi chamada para uma reunião com o coordenador e o RH. Não demorou: ao final do dia, foi dispensada, com todos os direitos. Aquilo me acendeu um alerta imediato. Se ela — excelente no que fazia — tinha sido demitida, quanto tempo ainda me restava?
 
A despedida foi difícil. Fomos contratadas juntas. Um ano trabalhando lado a lado é tempo suficiente para aprender a reconhecer silêncios, expressões, pequenas manias — e para sentir falta. Descemos até o térreo e descobrimos que outra colega também havia sido desligada. Rimos, meio em desespero. Até que um colega, sem filtro algum, disse que eu seria a próxima.
 
Na hora, eu gelei.
 
O coordenador era novo. Não conhecia a equipe — e não parecia interessado em conhecer. Eu já estava ansiosa, e a única informação que eu tinha vinha de alguém que raramente errava. Isso só piorava tudo.
 
Decidi ir direto ao ponto:
— Disseram que eu vou ser demitida. É verdade?
 
Ele travou. Perdeu o ar, gaguejou. E respondeu algo que, até hoje, ecoa:
— Nem eu estou seguro nesse cargo.
 
Ali, eu desmoronei por dentro.
 
Passei o resto da semana em estado de alerta: ansiosa, chorosa, com medo. Continuei fazendo meu trabalho da melhor forma possível — mas já esperando pelo pior. Enquanto isso, novos funcionários chegavam. Em um dia, duas enfermeiras foram demitidas. No outro, havia ainda mais gente no setor.
 
Em uma reunião, fui apresentada como técnica de referência. “Qualquer dúvida, podem procurar ela.”
 
Passei a semana treinando pessoas que, no fundo, eu temia que estivessem ali para me substituir. E, ainda assim, fiz o meu melhor.
 
Na sexta-feira à tarde, fui chamada para conversar. O coordenador disse que não iria me demitir. Que tinha pensado nisso, mas preferiu falar comigo antes. Comentou sobre boatos — absurdos — incluindo a ideia de que eu estaria organizando um motim contra a gestão. Disse que aquilo poderia, sim, resultar em demissão.
 
Eu neguei tudo. Disse que só queria trabalhar. Que não fazia parte de nada daquilo. Que queria distância de fofocas.
 
Saí aliviada. Quase esperançosa.
 
Voltei no dia seguinte, trabalhei, treinei novos funcionários, fiz tudo como sempre.
 
Na terça-feira de manhã, fui demitida pelo mesmo coordenador.
 
Desde então, minha mente não para. É como se meu corpo inteiro tivesse entrado em modo de ataque. Perguntas, pensamentos, adrenalina — como se eu precisasse fugir de algum perigo real.
 
Reviso tudo: o que fiz, o que não fiz, onde errei, onde poderia ter sido melhor. Mas a verdade é que, depois de dias, continuo girando no mesmo lugar.
 
Sonho que estou trabalhando. Discuto com ele na minha cabeça. Reescrevo cenas, invento versões onde eu continuo empregada. Brigo com memórias. Rezo para que meus pensamentos me deixem em paz — nem que seja por uma noite.
 
E uma pergunta insiste:
por que alguém me apresentaria como referência… para depois me mandar embora?
 
Talvez porque o sistema funcione assim.
 
Somos números. Não pessoas.
 
Li A Metamorfose, de Franz Kafka, e nunca fez tanto sentido. Me sinto um inseto — definida pela minha utilidade, pela minha capacidade de produzir, de sustentar.
 
Eu sei que não estou sozinha. Tenho apoio. Tenho quem me ajude. As contas não vão atrasar. Ninguém vai passar fome. Não tenho filhos, nem vidas dependendo diretamente de mim.
 
E, ainda assim, me culpo.
 
Mas, no fundo, existe uma verdade difícil de engolir: eu nunca tive aquele emprego. Eles é que me tiveram — pelo tempo que foi conveniente.
 
Agora, estou tentando me adaptar. Brigar menos com o que já passou. Silenciar, ao menos um pouco, essa mente inquieta. Mandar currículos. Seguir em frente.
 
Não é o fim do mundo.
 
É só um emprego.
 
Ou, pelo menos, é o que eu estou tentando acreditar.
 
No final… talvez seja tudo culpa da quaresma.

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