Reportagem do jornalista Felippe Aníbal reproduzida da Revista Piauí
Antes de tomar aquele táxi à noite para viajar até Balneário Camboriú, Zé Oswaldo estava agitado. Em depoimento prestado à Polícia Federal, sua mulher, Carolina, alegou que não sabia nem suspeitava de nada e contou como foram os primeiros dias logo depois da suspensão dos pagamentos da Theboss. Zé Oswaldo andava “meio nervoso” e “chorando bastante”, disse ela. Na primeira fuga, o casal se refugiou num chalé em uma chácara em Araucária, na Grande Curitiba, alugado via Airbnb. Ficaram no chalé durante quatro dias.
Na noite de 7 de setembro, já de volta em casa, em Curitiba, Carolina estava “apagada”, depois de tomar remédio para dormir e não percebeu quando Zé Oswaldo fez as malas e sumiu levando o aparelho de celular dela. “Eu nunca imaginei que, nossa, poderia ter tido todo esse problema. E ele só falava que estava sendo ameaçado e iriam matar ele”, disse à PF. Carolina garantiu que, depois disso, nunca mais viu o marido. Nos dias seguintes, fez um boletim de ocorrência na Polícia Civil informando sobre seu desaparecimento. A essa altura, Zé Oswaldo estava em algum lugar entre Balneário Camboriú e Itapema, onde foi preso.
No hotel de Itapema, de acordo com uma reportagem da RIC TV, afiliada da Record, em Curitiba, Zé Oswaldo trocou áudios com uma cam girl, que fazia lives em aplicativos. Segundo a emissora, nos dias anteriores à prisão, ele chegou a transferir 120 mil reais para a garota. Em um dos áudios, com voz de sedução, ele diz que acabara de tomar um “vinhozinho” e fumar um “charutinho”. “Espero que você durma bem e que tenha um dia maravilhoso amanhã, tá bom?”, despediu-se, antes de enviar à mulher beijos estalados. Os áudios caíram mal em Piraju.
“Nossa! Ah, [a reação foi de] perplexidade. Você começa a ficar abismado. Como é que pode um negócio desse?”, diz o prefeito Carlinhos Pneus. “[A sensação de ouvir os áudios] é não só de revolta, mas, assim, de ter sido traído, sabe?”, classifica o investidor Rodrigo Marques, ponderando: “O mínimo que ele deveria fazer é não fazer o que ele fez: ‘luxar’, vamos dizer assim… gastar dinheiro com mulher ou esbanjar.”
Ao ser interrogado pela Polícia Federal, Zé Oswaldo adotou um comportamento esquivo. Primeiro, abriu mão de ser representado pelo advogado da família, Norberto Bonamin Jr. Em seguida, disse que não responderia às perguntas porque não tinha defensor. “Quero permanecer em silêncio, porque até então não tive um advogado constituído que possa me representar”, disse o acusado, usando o uniforme alaranjado do presídio e já de cabelos e barba rapados à máquina zero. Justificou que Bonamin Jr. seria um advogado “na área econômica, não na área penal”. (Não é verdade. Bonamin Jr. se apresenta como advogado com atuação em direito penal e direito civil.)
No curso da investigação, a Polícia Federal concentrou-se nas atividades da Theboss de 2019 em diante. Neste período, identificou 606 investidores, que aportaram 360 milhões. Descobriu que Zé Oswaldo cuidava para não deixar suas digitais no esquema. Apresentava-se como sócio fundador da Theboss, mas a empresa sempre esteve em nome de laranjas. Alegava que não podia colocar no seu nome porque tinha contratos de operação com os bancos Morgan Stanley e o Credit Suisse. Seu banco, o Futuree Bank, não tinha registro no Banco Central, nem autorização para operar no mercado. Como a Theboss, o Futuree também não estava no nome de Zé Oswaldo.
Além da revenda de carros e dos empréstimos bancários, Zé Oswaldo também concebeu um esquema com cartão de crédito para captar mais investimentos. Ele tinha três empresas nas quais seus clientes faziam compras fantasmas com o cartão. Quando recebia dos bancos o dinheiro da “compra”, Zé Oswaldo repassava os recursos aos clientes acrescidos dos juros de 2,5%. Uma dessas empresas de fachada era a Brutus Nutrição Animal, que está no nome de Ivo Kasimirski. Em depoimento à PF, Kasimirski admitiu que, todo mês, fazia a distribuição do dinheiro por orientação de Zé Oswaldo.
Como o caso corre em segredo de Justiça e a PF não se manifesta sobre as investigações, não se sabe ao certo o que provocou o desmonte do esquema, nem o destino integral do dinheiro investido pelos clientes. No despacho de indiciamento a que a piauí teve acesso, a PF aponta “alargada confusão patrimonial” promovida por Zé Oswaldo entre suas empresas, mas não aponta o motivo que levou à suspensão dos pagamentos. Em geral, os esquemas de pirâmide financeira desabam quando o volume de dinheiro captado deixa de ser suficiente para manter a roda do golpe girando.
Em 4 de janeiro, o delegado Filipe Pace, da PF, concluiu sua investigação. Zé Oswaldo, que se encontra preso em Itapema, foi indiciado por dezessete condutas criminosas. Entre elas, gestão fraudulenta de instituição financeira, operação de instituição financeira sem autorização, crime contra o mercado de capitais, estelionato, crime contra a economia popular, organização criminosa, lavagem de dinheiro e uso de documento falso. Se for condenado por todas as acusações, pode pegar até 95 anos de reclusão.
Outras doze pessoas foram indiciadas. Tarcisio, o pai, e Rafael, o irmão, alegam que não participavam do esquema e suas contas foram usadas por Zé Oswaldo “sem que houvesse qualquer contraprestação ou benefício econômico decorrente dessa utilização”. E afirmam que seu patrimônio é compatível com a renda que recebem. Ainda assim, vão responder por crime contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta, crime contra o mercado de capitais e organização criminosa – com penas conjuntas, que podem chegar a 22 anos de prisão.
Carolina, mulher de Zé Oswaldo, também alega que não fazia parte do esquema, nem sabia de nada, mas confirmou que o marido usava suas contas bancárias. Foi indiciada por lavagem de dinheiro, cuja pena pode variar de 3 a 10 anos. Ivo Kasimirski, ex-frentista de posto de combustíveis, contou que foi contratado por Zé Oswaldo como faz-tudo. Com o tempo, assumiu novas atribuições. “Até me sinto envergonhado de muita coisa, porque, assim, doutor, eu não notava”, disse ele em depoimento à PF. Foi indiciado por cinco crimes, incluindo lavagem de dinheiro e crime contra o mercado de capitais. Se condenado por todos, pode pegar entre 9 anos e meio e 32 anos.
Desde setembro, mês seguinte à interrupção dos pagamentos da Theboss, a família dos Dell’Agnolo deixou Piraju. Alastrou-se pela cidade a versão de que os pais e o irmão de Zé Oswaldo hospedaram-se na casa de parentes em Bauru, a 145 km de Piraju. De vez em quando, os Dell’Agnolo fazem curtas aparições na cidade. Um dia, Tarcisio é visto na agência do Banco do Brasil. Em outro, Rafael aparece comendo pastel com a namorada em uma feira noturna. Mas ninguém sabe se é verdade ou lenda urbana.
A ruína da Theboss provocou cisões entre os Dell’Agnolo, já que familiares – tios, outros parentes e a irmã mais velha, que mora no exterior – aportaram altos valores em Zé Oswaldo.
Rafael morava em um dos únicos edifícios residenciais de Piraju, às margens do Rio Paranapanema, com sacada e uma ampla vista. Segundo o dono do edifício, Rodrigo Marques – aquele que entregou seu Porsche 911 para Zé Oswaldo –, o locatário deixou tudo para trás, sem pagar os mais de 4 mil reais de aluguel. “Ele [Rafael] pediu para a namorada ir lá buscar as coisas dele”, relata o construtor, que se ressentiu, porque também mora no prédio e mantinha uma relação de amizade com Rafael. “Não é pelo dinheiro, mas é a atitude. Poxa, vai lá e conversa comigo. E não sumir”, lamenta.
Segundo amigos próximos, a família também deixou de pagar pelas terras que arrendava para manter parte do rebanho. Uma dessas áreas é vizinha à Fazenda Ipiranga, de propriedade dos Dell’Agnolo. O arrendador chegou a reter os animais, até que o pagamento fosse feito. Na calada da noite, no entanto, a cerca foi rompida e os animais levados novamente para a propriedade dos Dell’Agnolo. O arrendador não quis conceder entrevista, mas confirmou o episódio à piauí.
Em Piraju, os investidores tentam assimilar o desastre coletivo provocado por um filho da cidade. “Eu acho que a palavra é tristeza [para definir] o sentimento de ter levado um golpe de uma pessoa que era de casa”, diz Rodrigo Marques. “Para fazer coisa errada, o cara [Zé Oswaldo] é um gênio”, disse Rafael Stuani, em entrevista concedida à piauí em dezembro. “Pensa numa pessoa psicopata. Ele é um cara quieto, observador. Ele observava seu jeito, do que você gostava, ele observava tudo em você”, completa Stuani, dizendo que Zé Oswaldo sempre foi educado e fazia o tipo boa-praça, que ajudava a seduzir a clientela.
A vereadora Fernanda Carrara se preocupa com quem vendeu seus únicos bens e colocou todos seus recursos na Theboss. “São famílias que já não têm mais seus 30 ou 40 anos, têm mais de 65 anos, que dependiam desse dinheiro”, diz. Ao mesmo tempo, ela se aflige com os rumores de vingança contra a família. “Atitudes tomadas no calor da emoção podem destruir ainda mais as vidas e agravar a situação de cada um. Não se faz justiça com as próprias mãos. Um crime não se corrige com outro crime.”
Mas a cidade não parece muito convencida a se apaziguar. Em 29 de dezembro, a polícia prendeu um homem acusado de extorquir a atual namorada de Rafael Dell’Agnolo, com o objetivo de que ela revelasse o paradeiro da família. Para intimidá-la, o suspeito ameaçava incendiar a quitanda dos pais dela e passou a perseguir seus familiares. A prisão ocorreu em Cambé, no interior do Paraná, a cerca de 230 km de Piraju. A partir da análise do celular do acusado, a polícia descobriu que ele havia sido contratado por Rafael Stuani, para coagir e cobrar os Dell’Agnolo. A Justiça expediu um mandado de prisão contra ele. Stuani foi preso em 3 de fevereiro – pouco mais de um mês depois da entrevista concedida à piauí. Indiciado por extorsão, ele ficou detido por quatro dias e responde ao crime em liberdade.
A prisão de Zé Oswaldo, por sua vez, também não durou muito: exatos 47 dias. Em 22 de janeiro, a juíza Gabriela Hardt lhe concedeu liberdade provisória. Zé Oswaldo terá que usar tornozeleira eletrônica, não poderá se ausentar da Região Metropolitana de Curitiba, nem sair de casa à noite e em fins de semana. Ele também está proibido de exercer “qualquer atividade financeira, comercial ou particular” e de se comunicar com outros acusados. O advogado dele, Gustavo Luz, informou que Zé Oswaldo não “fará manifestações à imprensa”.
Em 13 de fevereiro, no entanto, o Ministério Público Federal pediu novas diligências para seguir o rastro do dinheiro aportado no esquema. Entre os novos passos, estão a perícia nos dez celulares, no notebook e no iPad apreendidos com Zé Oswaldo, além do rastreamento de ativos financeiros do acusado em Santa Catarina. O Ministério Público também solicitou a manutenção do bloqueio de bens dos investigados, “visando à futura reparação das vítimas”. Enquanto isso, corre em Piraju o boato insistente de que a família Dell’Agnolo enterrou malas de dinheiro na sua propriedade.
Felippe Aníbal
É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)