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Tardezinha por por José Carlos Santos Peres

Postado à, 35 dias atrás | 3 minutos de leitura

Tardezinha por  por José Carlos Santos Peres
Insuficiente o toldo azul. Um furo sobre o arco de sustentação fazia de uma gota um chuveiro. Sem falar no vento que em rajadas projetava parte do dilúvio para dentro do abrigo.
Os quatro, solitários e silenciosos. Entre nós, a terça-feira e a monotonia da chuva repicando pela calçada. De quando em quando um carro, já em faróis acesos, iluminando o Atlântico em que a cidade se transforma quando chove.
Alguém lamenta por não carregar guarda-chuva. Coisa de velho, diz a senhora gorda que ocupa boa parte do espaço. E ri, contido.
Apresento-me à coletividade aquática:
- Zé, severino dessa vida quando chove.
A gorda é Lourdes. Maria De, diz. E tenta explicar os remédios na sacolinha transparente da farmácia:
- Nem parece que estou nos quarenta e oito... A vida tem me custado em remédios e rugas.
Aníbal, o do guarda-chuva, é tocador de obras e está de passagem para visitar a família. No domingo pega a estrada para Diamantina que lá, de bom mesmo só a mulherada, com todo o respeito à dona De Lourdes.
A mulher contemporiza, diante do olhar humilde do nosso inquilino:
- Não se avexe... O finado foi mestre de obras da Camargo Correa. Uma vadia em cada porto; mas no instante final da vida tomou de minhas mãos o último caldo... Ficaram alguns retratos, filhos espalhados e a pensão do INSS... 
E completa, com voz sumida, olhando para as luzes dos postes já acesas tentando dissipar a neblina:
- Ainda hoje, a mesma medida de sal na comida. E xícaras para dois sobre a toalhinha com o corcovado, presente de casamento.
Talvez a tarde, a chuva, as luzes dos carros se desfazendo... Talvez tudo isso para nos fazer pianíssimos.
Falo de minhas meias molhadas, do desconforto... Diante do silêncio geral percebo o quanto ridículo, em relação ao homem que veio do longe para trazer o sustento à família; da solidão de dona Maria tomando café de dois... 
Mas então, quando pensava que melhor estaria a caminho de casa, mesmo debaixo de chuva, agora menos intensa, eis que a vejo inteiramente, ofuscada que estivera pela timidez e pelo corpanzil de Das Dores.
Cabelos molhados, blusinha vermelha, jeans arranhado nas pernas e um olhar em desalinho... Não diz nada, apenas ilumina a tarde ao sorrir os seus vinte e poucos anos, antes de estender a mão para testar a intensidade da chuva.
De repente já não havia mais o arco democratizando goteiras; nem o azul do toldo era tão sem azul...
E nem a chuva me fazia Severino, quando ela me olhou sem jeito e sem história, antes de se perder na Esquina do Nunca Mais.