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Sistema de Plantio Direto de Hortaliças promove redução do uso de água no campo

Postado à, 0 dias atrás | 8 minutos de leitura

Sistema de Plantio Direto de Hortaliças promove redução do uso de água no campo

Técnica mantém o solo coberto por palha, favorece a infiltração de água, reduz o uso de

agrotóxicos e pode melhorar as condições de trabalho no campo

Uma camada de palha sobre o solo pode ajudar o produtor rural a economizar água,
reduzir o uso de agrotóxicos e melhorar as condições de cultivo. Essa é a proposta do Sistema de
Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), que evita o revolvimento frequente da terra e intercala o
cultivo comercial com plantas de cobertura, segundo o engenheiro agrônomo Sérgio Augusto
Martins Faria, da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI)) Regional Avaré.
Apesar do nome, o sistema não se restringe às hortaliças. Também pode ser aplicado à
fruticultura e à produção de grãos, com adaptações conforme a cultura e as condições da
propriedade. A ideia é melhorar gradualmente a qualidade física e biológica do solo, proteger a
área cultivada das intempéries e tornar o sistema de produção mais eficiente.
A origem do SPDH ajuda a entender por que ele vai além de uma técnica de plantio.
Desenvolvido há mais de 30 anos pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de
Santa Catarina (Epagri), em conjunto com pesquisadores, extensionistas e produtores rurais, o
sistema surgiu em um cenário de endividamento no campo. A necessidade de superar as
dificuldades financeiras levou à discussão de mudanças na forma de produzir.
O resultado foi um sistema que combina conhecimentos técnicos e científicos à busca por
maior autonomia dos agricultores.
No SPDH, a terra permanece coberta por resíduos vegetais, enquanto o plantio é feito sem
o revolvimento frequente do solo. A palhada funciona como uma proteção contra as variações de
temperatura e ajuda a conservar a umidade. Ao mesmo tempo, o sistema favorece a infiltração da
água, a formação de agregados e o desenvolvimento de poros e canais biológicos no solo.
Essas características são especialmente relevantes em regiões tropicais, onde o
revolvimento excessivo pode favorecer a erosão e a compactação. Com o tempo, a presença de
matéria orgânica e o aumento da atividade dos microrganismos contribuem para melhorar as
condições do solo cultivado.
“Nos trópicos, o revolvimento do solo é bastante complicado por causa do aumento da
erosão, compactação e outros problemas”, explica Faria. Segundo ele, a proteção proporcionada
pelas plantas de cobertura ganha ainda mais relevância diante dos eventos climáticos extremos.
Planejamento necessário
Mas a adoção do sistema exige planejamento. O primeiro passo é analisar o solo e
verificar a necessidade de correções químicas, como calagem e fosfatagem. Também é preciso
avaliar o perfil da área para identificar possíveis camadas compactadas e corrigir problemas de
estrutura física antes de iniciar o manejo com cobertura vegetal.
Em seguida, entram em cena as plantas de cobertura, estrelas do SPDH. Aveia-preta , no
inverno, e painço, milheto e sorgo-vassoura , no verão, são algumas das opções citadas pelo
agrônomo. Também podem ser utilizadas misturas de espécies.
Quando a vegetação atinge, em geral, o florescimento ou o estágio de grão leitoso, é feito
o acamamento. As plantas são deitadas sobre o solo para formar a palhada. Isso pode ser
realizado com equipamentos como o rolo-faca ou, conforme o sistema de produção, com o uso de
herbicidas. Depois, o plantio da cultura principal é feito sobre essa cobertura.

A aveia-preta (em destaque) é uma opção para o inverno, enquanto o painço se destaca no
verão por seu ciclo rápido


Após a colheita, o processo recomeça com uma nova planta de cobertura, alternada com a
cultura comercial. A repetição desse ciclo ajuda a aumentar a biomassa e a atividade biológica do
solo, com ganhos que se acumulam ao longo do tempo.
No início da implantação, Faria recomenda dar preferência às gramíneas. Como demoram
mais para se decompor, elas mantêm a cobertura por mais tempo, ajudando a proteger o solo
durante o ciclo da cultura.
A presença de uma camada densa de palha também pede ajustes na implantação das
culturas. No caso das hortaliças produzidas a partir de mudas, por exemplo, o agrônomo
recomenda utilizar plantas um pouco maiores, que tenham melhores condições de se estabelecer
sem ficar encobertas pela cobertura vegetal.
Desafios adicionais
Algumas culturas apresentam desafios adicionais. A cenoura, por ser semeada com
sementes muito pequenas, exige cuidados específicos para se adaptar ao sistema. Por isso,
embora o SPDH tenha potencial de aplicação em diferentes cadeias produtivas, o manejo precisa
considerar as características específicas.
Outro cuidado é monitorar a ocorrência de lesmas, que podem encontrar condições
favoráveis no ambiente mais úmido criado pela palhada. Segundo Faria, há alternativas de
controle para sistemas convencionais e orgânicos, incluindo iscas e o uso de cal virgem. Ele
ressalta que o acompanhamento é importante, especialmente nos primeiros anos, período em que
o sistema ainda está em adaptação e busca equilíbrio.
Na região de Avaré (SP), o SPDH também vem sendo utilizado em sistemas de produção
orgânica. Em pequenas áreas, uma alternativa ao herbicida é o uso de lona preta por cerca de 15
dias, em um procedimento de solarização que, segundo o agrônomo, auxilia no controle da
vegetação e pode ser incorporado ao manejo orgânico.

Faria em foto mostrando plantio de painço ao fundo | Fotos: Divulgação/CATI

A técnica ainda pode trazer benefícios para quem trabalha diariamente no campo. O
plantio de hortaliças costuma exigir longos períodos em posição agachada, uma condição que
pode ser amenizada com o uso de equipamentos manuais simples. Faria cita plantadeiras
utilizadas no cultivo de eucalipto que podem ser aproveitadas no plantio de hortaliças, reduzindo a
necessidade de trabalhar tão próximo ao chão.
Para o agrônomo, o potencial do SPDH está na combinação entre conservação do solo,
melhor aproveitamento da água e ajustes no manejo que podem reduzir gastos e facilitar o
trabalho na propriedade. Os resultados, porém, dependem da implantação adequada, da escolha
das espécies de cobertura e do acompanhamento das condições de cada área.
Produtores interessados em conhecer o sistema e avaliar sua aplicação podem procurar a
Casa da Agricultura de seu município ou a Regional da CATI mais próxima, onde é possível
conversar com técnicos sobre as características da propriedade e as alternativas de manejo.

 

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