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ERASMO: O OUTRO CARLOS por Carlinhos Barreiros (especial)

Postado à, 14 dias atrás | 6 minutos de leitura

ERASMO: O OUTRO CARLOS por Carlinhos Barreiros (especial)
Morreu Erasmo Esteves, o “Tremendão” da Jovem Guarda. Carlos ? Não, não: isso foi só zoeira para homenagear o parça Roberto e o empresário carioca Carlos Imperial, que o lançou para a vida artística no programa de rádio “Hoje É Dia
de Rock” (hoje seria podcast). Tantos Carlos de talento juntos não poderia dar errado e não deu mesmo.
Roqueiro até o talo, Erasmo, vejam só, conheceu Roberto quando foi buscar na casa deste a letra de “Hound Dog”, sucesso do Elvis que o Tremendão andava louco para cantar no programa do Imperial. 
Já Roberto nunca foi muito roqueiro não. Deslizou na onda do jacaré, contou a história de um homem mau, dos sete cabeludos e até gritou pega – ladrão, mas como mandou todo o mundo para o inferno em 1965 desde então se penitencia por ter sido tomado pelo desejo
satânico. Coitado. Teve até toc de tanto nervo.
Muito devoto e católico, mais talvez que as pastorinhas de Fátima, o Rei carola fez música para Mamãe (Lady Laura), para Papai (Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo), Para o Papa (Amigo), para Nossa Senhora (homônimo), para Jesus Cristo (homônimo), subiu “A Montanha” (seria o Gólgota¿), quer dizer, aquela coisa bem família e careta. Já o outro Carlos, por sua vez, cantou em verso & prosa as delícias da cannabis e dos békis (Maria Joana) e exaltou a sensualidade dos travestis brasileiros em “Close”, que dedicou à amiga Roberta (Close, claro). Deu uma
chupada em “Laranja Mecânica” (o livro de Anthony Burgess e o filme de Kubrick) e outra em “Construção” do Chico e escreveu a terminal “Cachaça Mecânica”, que infelizmente
poucos chegaram a ouvir. Para Erasmo, nada de mamãe, papai e a sagrada família não: onde já
se viu roqueiro que se preze cantar essas barbaridades ? Para o grande amor de sua vida, Narinha, com quem viveu por cerca de 15 anos e teve 4 filhos, dedicou o delicado samba “Coqueiro Verde” (... “já fumei um cigarro e meio e Narinha não veio”...). 
Depois do divórcio com o Tremendão, a frágil Narinha se matou, mas ficou imortalizada pelo coqueiro verde do amado. Palmas para ambos. A longa carreira de Erasmo inclui 29 álbuns de estúdio (os jurássicos LPs
bolacha preta e depois os famigerados CDs, ambos extintos atualmente) e mais 5 discos ao vivo. Seu último “O Futuro do Rock é a Jovem Guarda” recebeu, há cerca de duas semanas, o Grammy de Melhor Disco de Rock Latino.
Que massa. O Tremendão morreu mas deixou ainda, como último suspiro, um legado bem rock´n´roll, como era seu feitio de vida.
Coloquemos as coisas assim então: em 1968, Roberto Carlos encerrou a Jovem Guarda, foi para San Remo na Itália, ganhou o festival de lá com a belíssima “Canzone Per Te” de
Sergio Endrigo voltou e virou “cantor romântico”: nunca mais Malenas, Brucutus ou Calhambeques. Desde então, mesmo assinando centenas de músicas com o outro Carlos (que decerto só entrava com o nome) faz sempre a mesma canção (sempre macho hétero-cis- raiz) dedicada às maravilhas da alma (ou do corpo) feminino. Ou seja: meio maçante, né ? Café da Manhã, Cavalgada, O Côncavo e o Convexo, Rotina e Seu Corpo, entre tantas centenas, discursam sempre sobre a mesma coisa, saídas da mente comportada do Rei.
Já Erasmo jamais comporia “Cavalgada”, tenho certeza.
Quem sabe uma country music a la Willie Nelson, daí sim. Nasceu e morreu roqueiro, com toda a honra e a grandeza que isso lhe atribui. Você não passa de um cão sarnento, já dizia a canção de Elvis: então: Tutti Frutti, Erasmão! Au rutti!
 
 
Carlinhos Barreiros -O autor é professor, jornalista e escritor. Atuou em Piraju nos jornais “Folha de Piraju”, “Observador” e “Jornal da Cidade” sempre como cronista ou crítico de cinema/literatura. Publicou o livro de contos “Insânia: O lado Escuro da Lua” (esgotado). Em 2006 foi o primeiro colocado no Concurso de Poesias, contos e Crônicas da FAFIP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Piraju) com o conto Sade do Sertão. Atualmente, revisa os originais de seu livro de contos ainda inédito “Freak Show”. Mora em Piraju onde eventualmente contribui com a imprensa local.