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02/MAI - 02
MAI
OS TEMPOS SÃO CHEGADOS POR JOSÉ CARLOS SANTOS

Seu Pedrinho não podia ouvir falar de guerra no Oriente Médio que corria ao armazém de Secos & Molhados do Bituxo para abastecer a despensa. Como aquela zona era e continua sendo beligerante, meu amigo não saia do armazém.
O negócio do velho e bom senhor era comprar sal e óleo, principalmente óleo, que era mais fácil de estocar. Ele não se contentava com latas de um litro. Tinha de ser das grandes. Daquelas que nos serviam para colocar lixo. O caminhão passava logo ao raiar do dia e as latas iam sendo abandonadas, ao longo da rua. Depois, cada um procurava pela sua, um quarteirão adiante. Sinfonia de latas nas madrugadas de Avaré, com o leiteiro de porta em porta despertando os cães sonolentos. 
A lata de nossa casa era para guardar querosene, marca Jacaré. Linda que só, em azul metálico. Sobrava em elegância ao lado de todas aquelas da vizinhança. A inexorabilidade do tempo, como soe acontecer com o tempo, a oxidou de tal maneira que um dia ela se foi como lixo. Espécie de metalinguagem essa, se o leitor se propuser a um exercício linguístico mais vertical. 
As latas desapareceram das calçadas da cidade, em nome do progresso. Então, adotamos os sacos plásticos, somados agora as sacolinhas de supermercados. Passamos a acondicionar melhor o lixo, ao tempo em que entupimos o solo com material que leva anos para se desintegrar.
Bem, voltando ao Seu Pedrinho: ele tinha trauma de guerra; não participara de nenhuma, conforme lamentava dizer, mas, convocado, estaria lá, na linha de frente. 
Dizia, então já nos seus setenta anos, que coragem para defender o País lhe sobrava, embora entendesse que essa coisa de matar não condizia com os preceitos divinos. Mas guerra é guerra, filosofava, estufando o peito mirrado para demonstrar força.
Dona Lurdes, ao seu lado, limitava-se ao sinal da cruz e procurava aquietar o marido – homem de Deus, nem pense nessas coisas - temerosa de que a guerra pudesse mesmo chegar ao Brasil e levar o seu companheiro de uma vida ao front que, teimoso como era, com certeza seria o primeiro a se apresentar no Tiro de Guerra 007. 
O temor do Seu Pedrinho também era com a carestia, conseqüência de guerra. Para ele, a vida sempre estava pela hora da morte. Daí sentia um certo prazer em nos mostrar as latas devidamente enfileiradas nas prateleiras, e recomendava: em tempo de guerra, isso aqui vale ouro.
Dizia que o feijão estava em falta, que o arroz escasseava (numa época de fartura do produto) e, na impossibilidade de estocar esses produtos, porque perecíveis, corria ao Armazém para mais algumas latas de óleo.
Meu amigo já partiu para o outro lado da vida. Não precisou empunhar a carabina de dois canos que dizia guardar debaixo da cama, para uma emergência.
Faz tempo isso... Muito tempo!  Dona Lurdes o acompanhou na viagem inevitável e sem volta, poucos anos depois. A falta do companheiro apressou a doença que consumia seus ossos.
Lembro-me agora do Seu Pedrinho ao saber da guerra na Ucrânia. Se o meu amigo estivesse por aqui, com certeza já teria aumentado a despensa e dona Lurdes, terço entre os dedos, diria, ao me servir café em xícara de porcelana com motivos floridos, sobre a tolha de plástico, ao cair daquelas tardes modorrentas: “os tempos são chegados, meu filho... Os tempos são chegados”.
(* a carabina de dois canos do seu Pedrinho, soube depois, não passava de um pedaço de cano enferrujado que, sim, ele mantinha sob a cama “para uma emergência qualquer”).