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Voltar O acerto de contas  (um conto de Natal) por Carlinhos Barreiros

29/DEZ - 29
DEZ
O acerto de contas (um conto de Natal) por Carlinhos Barreiros

Nas desoladas charnecas escocesas, nos ermos de Wuthering Heights vivia Eliezer Scouter, velho sovina abandonado pela família a habitar casarão secular caindo aos pedaços.  O vento assobiava pelas frestas, os canos e a caldeira bufavam, a morada rangia e estremecia mas em pé seguia, decerto por conta de alguma ancestral maldição.
Na véspera de Natal, o velho contratou uma aldeã das proximidades para cuidar de sua ceia, uma certa senhora Bulleyes, matrona de maus bofes tão grosseira quanto seu contratante. Com fama na região de ser boa no fogão, servia. Morando sozinho há muito tempo, por causa de seu mau gênio, Eliezer vivia de batatas e chás.
Na cozinha, Bulleyes preparou aves e outras carnes da região, que serviu com ervas e uma taça de vinho em mesa posta para uma só pessoa no lúgubre salão à luz da lareira e poucas velas. Feito isso, reclamou seu pagamento, embolsou-o e sem agradecer foi-se porta afora, engolida pelo vento que insistia em uivar no pântano.
Eliezer Scouter devorava perdizes e lombo de javali com seus poucos dentes podres quando uma janela se abriu com estardalhaço, espalhando chuva. Por ela entrou, flutuando no ar, delicada criança, com as feições indistintas por causa do mau tempo e que se apresentou como Flora, a filha que ele havia estrangulado no berço por não querer mais descendentes mulheres. Com voz delicada e gentil, sempre flutuando, o anjinho informou ao parricida que seu lugar no inferno estava reservado para aquela noite mesmo, e assim como veio partiu numa nuvem fria de nevoeiro, deixando no recinto um odor de cadáver putrefato e algumas flores mortas no chão.    
Mal refeito do susto, com uma das mãos apertando-lhe o peito o velho quase foi jogado para trás com a força do vento quando as enormes portas principais do salão abriram-se, revelando no umbral uma figura ensopada, de cabeça baixa com um chapéu na mão. Firmando bem a vista na parca claridade, Eliezer quis reconhecer o fazendeiro e ex-vizinho Gregory Barnes, a quem mandara matar muito tempo atrás para depois comprar a propriedade da viúva. Com seu braço descarnado, Barnes sacou de um guarda-chuva pingando, apontou para o peito do anfitrião e decretou, numa voz oca e distorcida, que em poucas horas ele estaria morto, a arder no inferno. As portas bateram com estrondo às costas do fantasma, que só agora Eliezer se dava conta tinha apenas metade da cabeça, a outra estourada pelo fuzil do assassino que ele encomendara anos atrás.
Abalado com os acontecimentos da noite,  Scouter sente uma vertigem, cambaleia e escorrega no chão molhado. Desliza até bater a cabeça na lareira. Atordoado e agora apavorado, nota que as chamas se entrelaçam formando bizarros padrões até completar uma figura humana, feita de fogo que emerge da lareira em sua direção.
Eliezer corre, ou tenta, mas é inútil. A criatura, emanando calor, e que ele agora consegue enxergar bem, agarra seu pescoço frágil de velho e o arremessa do outro lado do salão onde se estilhaça contra uma janela alta. O ser infernal parece se divertir, pois gargalha bem alto, cuspindo brasas, chamas e faíscas, a risada a ecoar em todos os cantos do casarão amaldiçoado, espantando ratos, traças, baratas, morcegos e outras criaturas nojentas que não sabem o que é Natal.
“É Lucinda”, balbucia o velho, “é Lucinda, minha esposa que atirei no poço quando estava bêbado” mas é tarde para as reflexões de Eliezer. Com força sobrenatural, Lucinda ergue o velho como uma trouxa inútil e o soca dentro da lareira, enquanto suas mãos e braços em fogo laceram queimam e torram a carne do miserável, que grita em agonia dentro do túmulo ardente.
Epílogo: na manhã seguinte, logo cedo, a sra, Bulleyes se espanta ao ver dentro da lareira, enegrecidas pelas cinzas e fuligem, costelas que ela acha serem muito grandes para um mero javali. Quanto ao crânio sem olhos no mesmo local, ela se recusa sequer a pensar. 
 
 
 
 
• O autor é professor, jornalista e escritor. Atuou
em Piraju nos jornais “Folha de Piraju”,  “observador” e “Jornal da Cidade” sempre como cronista ou crítico de cinema/literatura.
Publicou o livro de contos “Insânia: O lado Escuro da
Lua” (esgotado). Em 2006 foi o primeiro colocado
no Concurso de Poesias,
contos e Crônicas da FAFIP (Faculdade de Filosofi a, Ciências e Letras de Piraju) com o conto Sade do Sertão. Atualmente, revisa
os originais de seu livro de
contos ainda inédito “Freak Show”. Mora em Piraju onde eventualmente contribui com a imprensa local.