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19/SET - 19
SET
A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE , por por RODOLFO ORTRIWANO

1966.... Inesquecível mesmo... A primeira vez que a família Ortriwano foi para a praia...Pai, mãe, irmã, irmão e eu... Meu pai já estava na oficina dele, ali na avenida São Miguel... Após dois anos de trabalho muito duro teve sua recompensa... Ele comprou um Ford Coupê 1949, quatro portas, preto. Tinha que ser preto. Como dizia Henry Ford, o carro pode ser de qualquer cor, desde que seja preto... O carro já tinha 17 anos, mas estava ótimo, bem conservado, bonito... Ele licenciou o veículo com placas vermelhas, virou táxi... Queria ganhar algum dinheiro com ele. E ganhou alguma coisa. Começou fazer lotação para levar o pessoal ao centro da cidade... Fazia duas a três corridas pela manhã, saindo ali da Ponte Rasa com destino ao Brás ou Parque Dom Pedro II, e mais duas à tarde/noite, no sentido inverso... Os ônibus eram muito lotados e as lotações opções relativamente baratas.. O resto do dia ele trabalhava na oficina e o carro rodava como táxi com um motorista amigo que ganhava comissão... Um dia ele surpreendeu a todos nós e anunciou : domingo vamos passar o dia na Praia Grande... Foi uma notícia que colocou nossas mentes em polvorosa... A gente nem sabia o que era praia... não sabia o que era o mar... Nunca tínhamos ido... Era um bate e volta... Sair de manhã bem cedo e voltar à tarde.... A ansiedade era incontrolável... No sábado, a expectativa extrapolava todos os limites ... Minha mãe matou uma galinha, temperou, colocou no forno e deixou pronta pra viagem... Junto iam mais algumas coisas como pães, doces, suco... Tudo preparado pra nossa farofada, na época chamada pic-nic... Meu pai disse que ia colocar o despertador para as seis da manhã pra gente aproveitar mais o dia... Chegou a noite do sábado, mas eu não conseguia dormir... Meu coração não batia, tremulava... Agora vou confessar uma coisa que nunca contei pra eles...Nunca souberam disso... De madrugada, fui no quarto dos meus pais, peguei o despertador e adiantei o relógio em duas horas... Pronto confessei... O despertador tocou às seis, na verdade às quatro da madrugada... Todos acordaram, menos eu, que não dormi... Já estava acordado... Tudo pronto, tudo colocado no carro e lá fomos nós. Lembro meu pai questionando a hora, porque o dia não clareava.. Meu silêncio foi sepulcral... Seguimos... Quando o dia clareou a gente já estava na estrada... A descida da serra foi pela estrada velha de Santos... A estrada das curvas do Roberto Carlos... Os carros antigos sofriam muito... Pesados, com freios a tambor nas quatro rodas perdiam a eficiência por causa do super aquecimento. E a gente deu aquela paradinha para esfriar os freios. E já dava pra ver as praias... muito longe ainda, mas eram as praias... O desconhecido estava mais perto... Mas vamos em frente... Chegamos em Santos, chegamos na orla, chegamos nas praias... Mas meu pai ia para a Praia Grande, a coqueluche dos farofeiros da época... Não tinha rodovia Manoel da Nóbrega, ponte do Mar Pequeno... Era por São Vicente mesmo... E pela até hoje lindíssima Ponte Pênsil.... Bom... Rodamos mais e lá estávamos nós na Praia Grande... Nossa, como era grande a praia... Primeira medida, tirar a roupa... e calção para os homens e maiôs para as mulheres... A partir daí foi um dia épico... Muito sol, muito calor, pedaços de pão e frango de vez em quando... Jamais vou esquecer esse êxtase, jamais vou esquecer essa minha primeira viagem... para a praia... E a Praia Grande...o dia mais longo da minha vida... Mas tudo que começa, acaba... Terminando o dia, lá fomos nós nos preparando para a volta... Posso dizer que essa volta comecou a ficar dolorida na metade do caminho... E começou doer muito... O corpo inteiro... Todos nós... Era o excesso de sol do dia inteiro cobrando seu preço... Estávamos todos muito vermelhos, muito queimados... Não dava pra encostar nenhuma parte do corpo em nenhum lugar do carro... Doía tudo, queimava tudo... Viagem sacrificada, interminável, cheia de chororô... Mas terminou... Chegamos de volta... Posso dizer com certeza que por três dias ficamos imprestáveis... E pouco depois teve ainda a troca de pele, como cobra... Que horror... Nunca mais fomos juntos, toda a família, para uma praia... Mas confesso que eu sofri e troquei de pele muitas outras vezes na vida... Mas a primeira vez a gente nunca esquece ... 

• Rodolfo Ortriwano é jornalista e professor universitário na área.