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14/JUN -
14
JUN
A faxina e o Nick por José Carlos Santos Peres
Percebo – e o dia nem amanheceu completamente - a mulher tocando pandeiro com a vassoura na veneziana do banheiro, enquanto, diante do espelho, desfio os fios de uma barba que se neblina cada vez mais.
Saio ao quintal e lá está ela equilibrando um frasco de Ypê, esguicho e vassoura numa faina barulhenta para remover uma areia preta e grudenta despejada pela ventania que encobriu a cidade na noite anterior.
Preciso dividir com ela as tarefas domésticas, como está implícito no contrato social que lavramos há anos. Mas essa divisão deve sempre considerar o modus operante que os povos originários determinaram.
Ou seja, eu fico com o esguicho e ela com o detergente, a vassoura, o rodo e outros instrumentais que se fizerem necessários.
Para o indígena, a caça e a pesca; à mulher: mandiocas, abóboras, bananeiras, limpar e cuidar dos peixes pescados e dos animais abatidos e todos os demais encargos que uma taba exigir e, nas horas mais tardias, retirar das costas do seu homem os cravos que lá se criam, com o carinho que tal procedimento pede.
Mas não é nada fácil acompanhar o ritmo da mulher numa tarefa, que ela multiplica fazeres e a todos atende num mesmo momento, enquanto nós, homens, particularizamos as atividades.
Se estou com o esguicho estou apenas com ele. Não somos multifuncionais, nossa dimensão é circunscrita, delimitada. Não nos tirem do foco que o mosaico se desarruma.
Então ela me vem: - já esguichou no banheirinho lá de fora? Removeu o detergente das janelas? Ah, o Nick precisa passear... Já esguichou o banheirinho? Lava aqui a vassoura, alcança ali aquele canto, veja se dá para esguichar no toldo... Ah, já levou o Nick passear? Esguichou no banheirinho? O Nick, tadinho, quer passear.
E eu corro e me tropeço na mangueira que se dobra e interrompe o fluxo de água e ela: alcança aqui esta mureta, anda com as janelas para remover o detergente; Coitadinho do Nick, precisando passear... E o banheirinho?
E martela, que martela, martela, enquanto canta uma musiquinha qualquer: “mas tem que me prender/ tem que seduzir/ só pra me deixar louca”. Ah aproveita e molha as plantinhas... Não esqueça de lavar a calçada, aproveita e lava também a parte de baixo do muro, e a grade, claro. Coitadinho do Nick...
Vassoura numa das mãos, detergente na outra, celular preso no ombro com o filho do outro lado – mãe, o que a senhora fez para o almoço? E eu lá, enrolado na mangueira, o detergente ainda na veneziana, o banheirinho sem a água, o Nick latindo e eu desenrolando a maldita mangueira.
Finalmente a ouço, rodinho empunhado: por agora chega, meu bem, que depois do almoço precisamos limpar lá dentro.... E sai: “Mas tem que me prender/ tem que seduzir/só pra me deixar louca...”.
E retorna:
- Mas você ainda não levou o coitadinho do Nick passear? O que ficou fazendo esse tempo todo?
Acho que na próxima ventania eu vou pescar.
José Carlos Santos Peres, de Avaré, é funcionário de carreira da Sabesp e escreve a convite do diretor da Folha de Piraju, José Elói, com quem trabalhou por muitos anos na empresa. Ambos também atuaram juntos como diretores do clube da Sabesp de Avaré.
Reconhecido por suas crônicas, José Carlos é escritor premiado e já possui outros artigos publicados nesta plataforma folhadepiraju.com